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3 fundamentos que ajudam psicanalistas a ampliar a procura pelo seu trabalho — muito além de qualquer técnica de “divulgação”

Mesmo as melhores estratégias de apresentação profissional costumam falhar quando não existe uma base sólida que sustente o encontro entre analista e analisando. Percebi isso ao observar, ao longo dos anos, como muitos profissionais da clínica tentam “mostrar trabalho”, estudar técnicas de comunicação, divulgar conteúdos… e ainda assim não conseguem manter uma agenda estável.

Isso acontece porque, na clínica, o que chamamos de “procura”, o movimento em que alguém decide iniciar um processo analítico, não é resultado de persuasão, mas de uma decisão interna do sujeito de mudar. É esse ponto que muita gente negligencia.

Quando o paciente diz “vou pensar e depois eu volto a falar”, muitos psicanalistas sentem que há algo errado na própria capacidade de se colocar no campo profissional. Mas, assim como nas vendas complexas, não é a técnica que resolve: é o fundamento.

Foi estudando esse movimento subjetivo de decisão, e observando o que realmente leva alguém a iniciar e sustentar uma análise, que reconheci três fundamentos essenciais para o analista que deseja ampliar o acesso ao seu trabalho, sem jamais abrir mão de sua ética, de sua prática ou da singularidade da escuta.


UMA OUTRA FORMA DE ENTENDER A “DECISÃO” DO FUTURO PACIENTE

Nos processos de decisão humana, inclusive na decisão de entrar em análise, existe sempre um deslocamento entre duas posições:

Situação A: um modo de sofrer, repetir, manter sintomas, viver impasses.

Situação B: um modo possível de lidar com o sofrimento, abrir espaço para o desejo, sustentar mudanças subjetivas.

A decisão de iniciar análise acontece quando o sujeito percebe que permanecer na Situação A é mais custoso do que arriscar-se a caminhar em direção à Situação B.

A questão para nós, analistas, passa então a ser:

Como favorecer as condições para que o sujeito reconheça sua Situação A, enxergue a possibilidade de uma Situação B e considere a análise um caminho possível para essa transição?

Foi buscando essa resposta que identifiquei três fundamentos que, até hoje, considero mais determinantes do que qualquer estratégia de “divulgação”.


OS TRÊS FUNDAMENTOS PARA A PROCURA ANALÍTICA

Fundamento 1: O sujeito precisa reconhecer sua dor psíquica

Sem dor reconhecida, não há procura.

Na clínica, a dor psíquica existe, mas nem sempre é simbolizada, nomeada ou percebida. Muitos chegam à beira da demanda, mas ainda não conseguem formulá-la.

Por isso, o psicanalista que deseja ser encontrado precisa:

Compreender profundamente as dores contemporâneas (angústias do trabalho, excesso de produtividade, perda de sentido, sofrimento relacional, esgotamento emocional, lutos difusos).

Criar meios éticos de falar sobre essas dores, ajudando o sujeito a reconhecê-las, sem patologização, sem imperativos, sem promessas mágicas.

Metaforicamente, o analista não fala do alto da teoria, mas ao lado do sujeito, oferecendo linguagem onde falta palavra, criando condições para que ele se reconheça no que lê ou escuta.

Exemplo: muitas pessoas não sabem que crises repetitivas (de relacionamento, de procrastinação, de ansiedade) podem ser expressão de um conflito psíquico. Quando o analista aborda isso em sua comunicação, oferece um espelho simbólico que possibilita o reconhecimento.


Fundamento 2: É necessário transmitir a PROMESSA ética da psicanálise

O sujeito não procura um produto, procura uma possibilidade de transformação.

Na clínica, a “promessa” nunca é de solução rápida, cura garantida ou eliminação total da dor. A promessa ética é outra:

Oferecer um espaço seguro, estável e tecnicamente qualificado onde o sujeito possa falar, elaborar e transformar sua relação com o próprio sofrimento.

Por isso, o analista precisa comunicar com clareza:

O que a psicanálise pode oferecer (e o que não oferece)

Como funciona o processo (frequência, sigilo, método, escuta)

Quais transformações são possíveis (maior consciência, menos repetição, fortalecimento do desejo, reposicionamento subjetivo)

O valor da presença do analista como suporte ao processo

Essa clareza gera confiança. Sem ela, o sujeito pode gostar da ideia da análise, mas não se sente seguro para começar.


Fundamento 3: CREDIBILIDADE clínica e simbólica

Mesmo que o sujeito reconheça sua dor e considere a análise um caminho possível, ele ainda precisa acreditar no analista.

Credibilidade para psicanalistas não se constrói com autopromoção, mas com:

Presença constante em espaços de circulação simbólica (textos, palestras, conversas, instituições, grupos de estudo)

Coerência entre discurso e prática

Formação contínua e visível (instituições, cursos, supervisões, grupos de estudo)

Textos, artigos, falas que demonstrem conhecimento e seriedade

Histórias clínicas depuradas de dados pessoais, mostrando modos de manejo e transformação (sempre preservando sigilo)

Afiliação a instituições com reputação sólida como a ANTPC

Quando um analista se associa a uma instituição séria, a um trabalho reconhecido ou a mestres respeitados, sua presença simbólica ganha força.

A credibilidade, nesse campo, não é ostentação: é garantia de ética e consistência.


E AGORA?

Você pode estar pensando: “Mas existem muitos outros fatores que influenciam a procura clínica.”

Sim, sem dúvida. Mas estes três fundamentos são a base:

Dor reconhecida

Promessa ética compreensível

Credibilidade clínica e simbólica

Com eles, o sujeito se permite considerar a análise; sem eles, qualquer esforço de divulgação se torna frágil.

Sugiro que você observe, com honestidade:

Sua comunicação está ajudando as pessoas a nomear suas dores?

Você está transmitindo claramente o que a psicanálise oferece?

Sua presença profissional está visível, sólida e coerente?

Se estiver, siga adiante. Se houver pontos de melhoria, priorize-os, fará diferença tanto para sua clínica quanto para os sujeitos que podem se beneficiar dela.

Por: Gleice Leal

Coordenadora da ANTPC

Professora no CETEP

 
 
 

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